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Parêntese para lusófonos - 9 ... Confissão de mulher...

Chamávamos te a menina da praia, e gostámos sempre de ti.
Eras alegre, trabalhadora, sempre a cantar na ceifa, sempre a dar a mão… e eras magra e feia como uma arreigota, não fazias concorrência prós moços, eles viam te como um companheiro, só que não tinhas picha, isto sem querer ofender te!

Para o que ser bonita me serviu… foi o velho do Lopes, que o demónio lá tem e que o esturrique todos os dias, o que me tirou os três, lá nos caliptros do cerro da Galinha.
O safado encalçou me o rasto e nem de gritar servia. Lá tomei os chás da lua da tua avó, mas quando se me acabaram as ervas fiquei prenha e o Lopes virou se para outra.
Sabes que quando lhe morreu a mulher que Deus há de ter na sua grande misericórdia não houve moça ou mulher jeitosa no latifúndio que lhe escapasse: era isso ou desandar…

Então pôs se me encima o Palmeira, era isso ou não ter jorna, e com o filho a crescer nas entranhas… mas depressa o magano se cansou.

Pari do meu Ricardo, moço valente, do pai só os olhos daquele verde que nos gelava, mas de olhar manso, e que ao desenvolver não se alterou.

Tornei me presa fácil, cadela pró cio dos homens, andava sempre de cajado pronta a defender o que já nem era meu, e apareceu me o Chibre, moço doutra terra vindo ceifar, e esse até me quis casar.

Mal sabia eu o preço de me tornar respeitável, a alcunha era bem dada, aquilo era todas as manhãs, todas as noites e mais se pudesse. Quando eu estava naqueles dias em que me deveria dar descanso fazia isso ás avessas, e quanto mais eu gritava de dor mais besta o homem ficava.

Pari filhos e levei porrada, era o pão santo de cada dia, até parir levava lhe com o chibre e acabando de parir no dia mesmo mo metia ás avessas, logo depois, nem descansar do parto tinha direito, nem uma vaca, uma porca, uma ovelha, uma cabra é tão sacrificada…

Passaram os anos, veio o 25, pra mim a vida nem tanto mudou, levar com o homem encima quanto baste, levantar e tratar da lida, dos moços, da malga do homem, da horta, dos bichos, parir filhos que nem Deus de mim se apiedou, levar porrada quando o homem voltava com a bebedeira…
Alargaram se me as banhas de tanto parir, descaíram se me as tetas de tanta mamada, desmontaram se me as costas de tanto arcar…

Cada vez menos havia trabalho, o campo já não se cultivava, o homem foi prá França, ficas cá com os cabrões dos moços e a minha mãe que vem viver contigo, assim se te arderem as beiça ela prega te com a cona no poço, minha rica sogra que Deus me deu, tão meiga quanto o filho era bruto, minha melhor amiga, minha companheira.

E com o vale que chegava todos os meses certinho melhorámos a casa, comprámos porcos, televisão, máquina de lavar a roupa, os moços andaram na escola e até não ficaram mal na vida, todos com emprego, o que pelos dias que correm se não é milagre é paga de Deus pelo sofrido.

O homem por lá continua, só em Agosto vem á terra, é o meu mês de sacrifício, chibre sempre alçado apesar dos anos, e sempre à retaguarda porque sabe que não gosto… mas, enquanto eu me sacrifico um mês, lá pela França deve haver uma coitada para quem esse mês é abençoado descanso… não sei nem quero saber, que me mande o dinheirinho e que vá ganhando prá reforma e, Deus me perdoe o mau pensamento, que a ceifeira mo leve antes que tenha ideias de voltar viver cá prá terra…


Como sempre o autor inventou tudo, sobretudo quando como eu vem de outro planeta… por isso fique aqui dito que qualquer semelhança com gentes ou lugares desta terra é mera coincidência e não implica qualquer responsabilidade por parte do autor.

6 comments

.A. said:

Não sei.
A escrita é leve e vigorosa mas eu embirro com o uso do palavrão.
É um belo texto feminista, no que o feminismo tem de mais ortodoxo,
isto é o total antagonismo entre feminino e masculino.
Sem o recurso ao palavrão aproximar-se-ia das belíssimas
Novas Cartas Portuguesas.
É a minha modesta opinião.
Um abraço, Isabel.
9 years ago ( translate )

Xata replied to .A.:

Agradeço a sinceridade.
O palavrões fazem parte da linguagem aldeã... como os tais "esses"... a "X" falou me assim, e não quis alterar as suas expressões, para mim seria adulterar o testemunho, já alterei as virgulas que eram um "cacete" ou "punheta" porque pesavam muito...
Um abraço, A.
9 years ago ( translate )

Armando Taborda said:

Um texto exemplar a todos os títulos: a autenticidade do conteúdo e da forma; o típico e saboroso vernáculo à Portuguesa (que a Internet apagou dos manuais); e a tua ironia característica a que nos vamos habituando.

Não pares de escrever, Isabel!
9 years ago ( translate )

Xata replied to Armando Taborda:

Obrigada, Armando. Tenho outro a "afinar"... num estilo diferente!
9 years ago ( translate )

Luíz Mourão said:

Lembro-me de ter lido um livro do Gorky, creio que era a Mãe, há muitos anos, Esse livro impressionou-me porque só retatrava a miséria humana, enfim a infelicidade. Não li mais nenhum livro dele porque fiquei arrasado. Espero, Isabel, ler, futuramente, de tua lavra, os amanhãs que cantam. É claro que alguém tem que abanar as consciências de todos aqueles que ignoram certas realidades, prostrados no seu espaço de conforto. Mas quando a ficção tem o mesmo peso específico, alguém tem que dar uma rosa ao autor.
9 years ago ( translate )

Xata said:

O autor neste caso transcreveu uma verdadeira confissão... se fosse padre excomungavam me, apesar de que, nos meus textos, se tudo corresponde ao meu passado e a coisas que vivi, os nomes das outras pessoas e certos lugares foram todos mudados (nunca se sabe!)
9 years ago ( translate )