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Parêntese para lusófonos - 8 ... Não falaste...

Na fresca noite deste morno inverno em que olhavas para o céu estrelado em muda contemplação e harmonia, os teus braços bestialmente puxados para trás das costas e uma cacetada levaram te das trevas da abóbada celeste ao breu dum poço sem fundo.

Que chão é este que arranha a tua cara e esta dor nos ombros, mãos dormentes e pulsos a estalarem?

Um jorro de água que te parece gelada, umas mãos que brutalmente te levantam e deixam te cair sobre o que aparenta ser uma cadeira, um safanão para ficares direita.

Uma luz não solar que te devassa as pálpebras.

Cai uma pergunta que fica sem resposta.
Cai porrada que se vai intensificando em alternância com as mesmas perguntas sem resposta.

Este não é o teu corpo, isto não está a acontecer.

Fecha te, faz do teu segredo uma bola, nela mete a tua alma e esconde a mais fundo, mais ainda, lá onde ninguém pode chegar.
Endurece essa bola para que não se abra, torna a lisa e resvaladiça.

Hás de falar sua puta, nem que te foda tudo quanto é buraco.

Este não é o teu corpo, só um envelope destinado a conter o teu segredo, a dor é só sentimento e não sensação, este não é o teu corpo.
Façam dele o que entenderem, tu não estás aqui, não te podem humilhar.
Este corpo é só farrapo…

Ao negro sucede o branco hospitalar, aos gritos os sussurros, ao frio o calor, á brutalidade a doçura dos gestos.

Reaprender o teu corpo, tomar novamente posse dele, abrir essa esfera de aço que contém a tua essência e o teu segredo.

Aprendeste um sentimento novo: o ódio.
Ódio que tens de transformar em força para reconstituir o teu invólucro, apagar as marcas infames, poli-lo até que nada se note.
Ódio que tens de cultivar para te fortaleceres contra o indizível e que depois terás que enterrar para que não te destruía.

Passaram os anos e mudaram os tempos, e o que já ninguém sabe ou lembra é que não falaste.


DIZ

Diz mulher
ao teu país
como lutaste até hoje

o que fizeram
de ti

o que quiseram
que fosses

Como prenderam teu
grito
sob a boca amordaçada

Mas como cantaste
assim
do teu desgosto apartada

Diz mulher
ao teu país

conta a vida em que
cresceste

Como algemaram
teus pulsos
conta aquilo que aprendeste

Do saque da tua
vida
relata os dias passados

da cadeia em que estiveste
descreve
o pavor rasgado

as torturas que sofreste
o medo
nunca acabado

Diz mulher
ao teu país
como lutaste até hoje

não cales mais
a recusa
do que quiseram que fosses

não silencies
a renúncia
a que te viste obrigada

Não desistas
de gritar
tua vida encarcerada

Maria Teresa Horta, in «Mulheres de Abril».




17 comments

Xata said:

Obrigada pelo fave, .A.
9 years ago ( translate )

.A. said:

Reaprender o corpo, sim.
Também precisei de o reaprender, feito numa bola sangue e trapos.
Dezasseis dias e dezasseis noites de tortura do sono, primeiro onze, até ao coma e à cegueira temporária. Depois mais cinco, com um choro de bebé transmitido pelo altifalante da cela do reduto sul da prisão de Caxias e a ameaça de me torturarem o meu Rui então com dezasseis meses à minha frente caso não falasse. Não falei, não, sobrecarreguei-me com a carga alheia porque o choro da criança foi mais forte do que o ódio. A mim apanham-me sempre pelo lado da compaixão.
Foi em 1973.
Fui libertada a 25 ou melhor a 26 de Abril de 1974.

Tinha vinte anos.

Obrigada por este texto, Isabel.

.

.A.
9 years ago ( translate )

Xata replied to .A.:

Caxias...libertar os de Caxias...certamente não reparaste, no meio da multidão que acolheu a vossa saída, numa figurinha escanzelada apoiada num homem alto e moreno, mulher que mal se tinha ainda de pé sem ajuda e gritava de alegria com lágrimas de comoção...
Temos a mesma idade mais ou menos, sofremos com os nossos 20 anos, na mesma juventude que não se conformava.
O meu tendão de Aquiles seria a minha avó... mas curiosamente não lhe tocaram apesar de ter sido activa.
Vês, foste capaz de escrever sobre isso, e publicamente aqui.
Sinto me estranhamente leve desde ontem, desde que fiz um clic em "publicar".
O que nos fizeram é parte de nós, construiu as mulheres adultas que somos, temos de viver com isso e dar lhe o seu lugar, é o mais difícil: aceitar o que é inaceitável.
Não dormi, pensei em ti, pensei em todos os que fomos sacrificados, em todos os que padecem do mesmo hoje ainda pelo mundo fora.
Porque são sempre os mesmos que são victimas das bestas...
Porque a esperança nunca se perde.
E que a próxima não será com cravos, para que o fascismo não volte, mascarado de democracia...

Esta manhã a seguir a escrever isto, fui à praia com a canita, ao voltar deparou se me esta mesa, não há coincidências...
9 years ago ( translate )

.A. replied to :

Tantas lágrimas, tanto sofrimento, nosso e das nossas famílias
para hoje assistirmos a esta pouca vergonha que muito se aproxima da pornografia política de outros tempos. Só que de outra maneira, mais refinada, mais obscena também.
Não não há coincidências.
Um beijo, Isabel.
9 years ago ( translate )

Rafael said:

Una narración impresionante, si !
Hay que tener memoria histórica. Los jóvenes no saben lo que es el fascismo y la falta de libertades, tienen mucho que escuchar y aprender.
9 years ago ( translate )

Xata replied to Rafael:

Por esto me importó tanto el libro que me hiciste conocer...
9 years ago ( translate )

Xata replied to :

Queres que te diga, A? É o que mais me revolta, tanto sacrifício para ver quase deificados valores que muito se assemelham aos do fascismo... aplicar leis e impor decisões que pouco distam daquilo contra o que lutámos e tanto sacrificámos.
Nós defendíamos valores fundamentais que eram posições filosóficas, agora o valor fundamental é a posse, o dinheiro, o descartável.
Mais obscena agora que o fascismo daquela época que tinha o único mérito de não pretender ser democracia...
Vejo que a nossa anarquia e anti-conformismo é da mesma estirpe.
Um beijo para ti, A., irmã...
Vou ficar dois dias offline, no campo, naquele de que tanto falei nos outros textos deste blogue...
9 years ago ( translate )

Armando Taborda said:

...surpreendido mas não admirado com a vossa prisão...

...vosso corpo torturado conseguiu escondeu a alma...

...texto admirável...vê-se que foi "sentido" ao longo de muitos anos...
9 years ago ( translate )

Xata replied to Armando Taborda:

Habituadas certamente a esconder o que poucos podem entender, o pudor também de não nos exibir, deixando a outros a vocação de mártir...ou herói...em todo o caso falo por mim.

Nunca culpei os outros pelo que me aconteceu, eu escolhi uma posição na vida que comportava certos riscos que eram conhecidos e assumi as consequências.

Também a necessidade vital de seguir adiante para não enlouquecer que levou a tentar arrumar tudo isto numa gaveta do cérebro, granada despoletada...

Difícil escrever com o tom certo, precisava de sair há muitos anos mas foi preciso há três noites um cão na rua ladrar e eu acordar, levantar me, beber um copo de água e as palavras certas iluminaram se na minha cabeça.
Sentei me ao computador e foi duma tirada. Li no dia seguinte e senti que nada havia que retirar, que as palavras diziam com precisão o que transbordava à força de ser abafado.
9 years ago ( translate )

Armando Taborda replied to :

São os desabafos repentinos que andaram durante décadas em efervescência latente no subconsciente, como lava de vulcão. O texto saiu-te perfeito porque estava lá dentro já escrito na memória da insónia.

A exibição e o pudor valem o que valer quem se exibir ou calar. Nada mais do que isso.

No teu caso, Isabel, o tempo foi este. A vida pertence-te e comunicares as tuas experiências, emoções e sentimentos pode ser uma boa receita para dignificar e valorizar estas medíocres redes sociais em cujas teias oscilámos ao sabor de ventos e venenos.

Bem-hajas!
9 years ago ( translate )

Xata said:

Um beijo, Armando. Obrigada.
9 years ago ( translate )

Luíz Mourão said:

Cara Isabel, sabes? só agora começei a ler os teus textos. Confesso que estou impressionado ao vislumbrar, ou melhor, pressentir que há maus momentos na tua história de vida. Irei continuar a ler o que escreves, mas se. mais, desta natureza, relatares, só espero que a tua vida presente tenha a felicidade com a mesma grandeza que a infelicidade por que passaste. Que haja uma compensação que faça do inferno a forja da tua dimensão superior.
8 years ago ( translate )

Xata replied to Luíz Mourão:

Criança enjeitada, crescida à custa de trabalho, sempre fui positiva, nunca me lamentei nem nunca me achei infeliz. Mektub dos árabes? Talvez um pouco... Nunca me dei mais importância que a que tenho, isto é bem pouca ou nenhuma aos olhos do mundo, mas sempre vivi com intensidade cada momento, a felicidade está nas coisas pequenas, em ter a capacidade de as apreciar, de ver o bom, de tornar feliz quem me rodeia.
Se sou feliz? Acho que sim, tenho uma vida relativamente privilegiada já que a saúde vai indo +ou-, não temos dividas e não me falta nada. Tenho gente querida nas minhas relações de amizade, e sei desfrutar.
Agradecida pela tua atenção... sabes, acho que em geral se não se pode dominar tudo sempre podemos dar uma certa orientação à nossa vida, e que quando nos acontece algo mau a primeira pergunta que fazer será "onde me enganei" e não sentir se vitima.
8 years ago ( translate )

Eric Desjours said:

Quem não viveu numa ditadura não pode sentir completamente a ferida evocada pelo seu texto Isabel, muito menos se não for uma mulher. Mas apesar de tudo, toca-nos até às profundezas da nossa alma e inspira-nos com o vaidoso, infelizmente "nunca mais"...
Um texto forte, poderoso pela sua bela linguagem e imagens, e tão terrível.
~~~
"Mais obscena agora que o fascismo daquela época que tinha o único mérito de não pretender ser democracia.". Ô combien je souscris...
11 months ago ( translate )

Xata replied to Eric Desjours:

Obrigada Eric, pour le sensibilité et avoir pris le temps de tout lire.
L'histoire se répète toujours car le passé finit inévitablement par sombrer dans l'oubli ou se transformer en paroles vides de sens pour ceux qui ne l'ont pas vécu.
La bestialité de l'humain n'a pas de limites, on adjectivise de bestialité mais à part les félins il y a-t'il des bêtes qui prennent plaisir à jouer avec leur proie?
Je crois bien que nous sommes ce qu'il y a de plus destructeur et malfaisant sur cette pauvre planète, pas étonnant que la nature essaye par tous les moyens de réduire notre nombre...
11 months ago ( translate )